Vidas Negras Importam: o homicídio de George Floyd leva à onda de protestos contra o racismo estrutural

Por Patricia Braga
14.06.2020

 

No momento em que o mundo passa por situação catastrófica de pandemia de um vírus potencialmente mortal, mais uma pandemia se instala, mas essa assola a sociedade há centenas de anos, e parece não ter fim. Essa é a epidemia do racismo e da discriminação.

Foi no dia 25 de maio na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos, que a supremacia branca colocou o joelho no pescoço de um negro. George Floyd, 46 anos, negro, pai, esposo, filho, irmão, foi mais uma vítima do racismo estrutural. Ele foi morto asfixiado por um policial, que manteve o peso de seu corpo com o joelho em cima do pescoço da vítima por mais de 8 minutos.

De acordo com o advogado da família de Floyd em entrevista, o que o matou foi o racismo e a discriminação. O homicídio de George criou uma onda de protestos e manifestações contra o racismo que já dura dez dias. Sob a hastag blacklivesmatter, em sua tradução literal “Vidas negras importam”, os Estados Unidos mantêm essa onda de protestos e manifestações por causa da morte de Floyd, há mais de dez dias depois de sua morte. A indignação já percorreu quilômetros dentro da cidade de Nova York e se espalhou por diversos continentes.

 

 

 

Apesar da grande repercussão dos últimos dias contra o racismo nos Estados Unidos, essa é uma luta constante e sempre iminente na vida das pessoas negras de toda sociedade. Para Cornel West, professor, escritor, além de figura importante na luta contra o racismo, os Estados Unidos é um experimento social falido. “Esse fracasso acontece há 400 anos e, embora (o sistema) tenha funcionado para alguns, quando se trata de pessoas pobres, principalmente negras, é um fracasso. Isso é crônico, estamos falando de algo que tem raízes profundas. Samuel Beckett estava certo quando disse: "Tente novamente, falhe novamente, falhe melhor". A história dos Estados Unidos de lidar com o legado da supremacia branca está falhando, mas tentando falhar um pouco melhor, exigindo um pouco mais de responsabilidade, condenando um pouco melhor, mas no final a supremacia branca corre profundamente no país, o capitalismo predatório se arrasta profundamente”, destaca em entrevista à BBC.

 

Brasil

Na mesma semana em que a repercussão sobre o caso de Floyd comoveu o mundo, Miguel, um menino negro de 5 anos de idade teve sua segurança e sua vida negligencia por mulher branca da elite, enquanto sua empregada doméstica e mãe do garoto, passeava com os cachorros da patroa. Branca, primeira dama, moradora de um condomínio de luxo em Recife, Sari Corte Real não teve a preocupação em não deixar o menino entrar sozinho em um elevador como também apertou o botão que fechou a porta do elevador. Mais uma vez a sociedade escravocrata em que vivemos empurrou, de forma velada, uma vida negra para morte.

Semanas antes, o Brasil também testemunha a morte de João Pedro, menino negro de 14 anos, que teve a sua casa invadida e alvejada por policiais. De acordo com a perícia, foi um total de 70 disparos dentro do imóvel onde o garoto passava pela quarentena com a família, sendo que, um desses disparos atingiu mortalmente João Pedro nas costas.

Agata de 8 anos de idade, Jenifer Cilene de 11 anos, Kauan Peixoto de 12 anos, Kauã Rozário de 11 anos, Kauê Ribeiro de 12 anos, Kethellen Umbelino de 5 anos, Ana Carolina de 8 anos morreu baleada com um tiro na cabeça enquanto descansava no sofá. 

Essas são algumas das vidas que importam. Vidas perdidas por um sistema que odeia o negro, uma sociedade escravocrata, branca e elitizada. Uma sociedade que negligencia a vida em detrimento da cor da pele e aperta nossos pescoços com todo o peso do corpo “sem a intenção de matar”. Uma sociedade que empurra a vida de uma criança de cinco anos para o elevador da morte e sai impune por vinte mil reais. Essa é uma sociedade cujas ações dolosas passam por culposas sem a menor cerimônia.

Esses e outros diversos casos acontecem constantemente na sociedade brasileira endossado pelo que chamamos de racismo estrutural.

 

Estatísticas

De acordo com pesquisa divulgada em 2019 pelo IBGE, a taxa de homicídio de pessoas pretas é três vezes maior do que a de pessoas brancas.  No Brasil, a taxa de homicídios foi 16,0 entre as pessoas brancas e 43,4 entre as pretas ou pardas a cada 100 mil habitantes em 2017. Em outras palavras, uma pessoa preta ou parda tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio intencional do que uma pessoa branca. (IBGE, 2019).

A série histórica revela ainda que, enquanto a taxa manteve-se estável na população branca entre 2012 e 2017, ela aumentou na população preta ou parda nesse mesmo período, passando de 37,2 para 43,4 homicídios por 100 mil habitantes desse grupo populacional, o que representa cerca de 255 mil mortes por homicídio registradas no Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM, do Ministério da Saúde, em seis anos. (IBGE, 2019)

 

Fontes: 

IBGE: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf

G1: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/06/06/caso-george-floyd-os-eua-sao-um-experimento-social-falido-critica-filosofo-engajado-contra-o-racismo.ghtml

crédito de imagem: Istoé


Patricia Braga

Por Patricia Braga

Jornalista e Bacharel em Letras. Possui experiência em produção e revisão de conteúdos jornalísticos e materiais de apoio, tendo passado pelos setores de construção sustentável, crédito imobiliário, comércio e varejo.

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